Jéssyca Rocha

Inserção no mercado de trabalho: um olhar multidisciplinar

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Quem é advogado(a) jovem sabe dos desafios de conquistar o seu espaço no mercado de trabalho. A relação entre o número de candidatos e o número de vagas é desproporcional e assustadora. Diante disso, muitos são os problemas relatados: baixos salários, subemprego, assédio (moral e sexual), desvio de função, ausência de feedback em processo seletivo, etc.

Mas a verdade é que o problema não se restringe às fronteiras do mercado jurídico. Em verdade, é um fenômeno nacional que afeta jovens de todo o país. Para falar sobre o tema, com uma perspectiva de outra carreira, convidamos a jornalista Jéssyca Rocha.

A nossa entrevistada de hoje tem 26 anos, é baiana e mora em Belo Horizonte. Tem formação em Jornalismo pela PUC/Minas e atualmente cursa graduação em Letras. É uma apaixonada pelo poder da comunicação, pelos formatos em que pode contar uma história e pela responsabilidade de contribuir com a sociedade através da informação. Nos últimos dois anos trabalhou com assessoria de comunicação/imprensa em uma empresa pública e lá realizou várias atividades como a produção de conteúdo para mídias sociais, comunicação estratégica/marketing e com a cobertura de reuniões e eventos em 35 cidades da região metropolitana de Belo Horizonte. Também trabalhou nesse tempo como social media, gerenciando redes sociais, criando conteúdo e campanhas publicitárias. Além disso, produziu um documentário que está disponível no YouTube chamado “Refugiado: A pátria que há em mim”, que aborda a história de um líder estudantil perseguido pelo regime ditatorial da Venezuela, que não viu outra alternativa a não ser deixar o seu país e solicitar refúgio no Brasil (documentário abaixo).

Viver Direito – O Brasil como um todo tem protagonizado, já há alguns anos, uma expansão considerável das mais variadas faculdades e a busca dos estudantes pela alocação no ensino superior. Esse movimento tem favorecido a qualificação profissional, mas também apresenta outras consequências como o aumento do índice de inadimplência/endividamento, abandono dos estudos e despreparo para o mercado de trabalho. Na sua visão, o ensino superior no Brasil precisa melhorar? Se sim, que medidas poderiam ser adotadas, tanto pelas entidades estatais responsáveis pela estruturação das políticas públicas, quanto pelas instituições de ensino e seus respectivos alunos?

Jéssyca Rocha – Não consigo afirmar que o ensino superior no Brasil precisa ser melhorado, afinal temos no país universidades públicas e privadas que estão entre as melhores do mundo. O que eu penso, na verdade, é que a ingressão no ensino superior ainda é algo seletivo, porque existe um descaso quanto às escolas públicas brasileiras, como a falta de investimento, estrutura e incentivo. Convivi com muitas pessoas que deixaram a escola porque tinham que trabalhar e ajudar na renda de casa. Ouvi muito “estudo ou como” enquanto cursava o ensino médio. Tenho meu privilégio, não precisei deixar a escola para trabalhar, pude me dedicar ao ENEM e tive apoio da minha família. Mas essa não é a realidade de muitas pessoas que convivi e assim como elas, existem outras milhares que anseiam entrar para faculdades e encontram dificuldades, sejam elas financeiras ou não. Ainda que se tenha muitas universidades com diversos valores, é muito difícil conseguir arcar com tantos gastos e não pensar em abandonar os estudos. Eu mesma, tive que trancar por 4 vezes o meu curso na faculdade, mesmo tendo uma bolsa de 50% e quando voltava, era quase 1 mês e meio depois que a turma. Afinal, ainda que a minha realidade seja diferente de muitas, eu também não sou rica. Por fim, diria que as escolas públicas brasileiras precisam ser melhoradas e que é necessário políticas públicas para que jovens e adolescentes consigam se manter na escola e sonhar com uma formação superior. É muito complexo. Porque enquanto tem gente que nunca foi inadimplente, tem gente que faz malabarismo pra sobreviver e formar.

Viver Direito – Você publicou recentemente no Linkedin uma crítica bastante contundente às sociedades e estabelecimentos que fazem processos seletivos, mas não dão qualquer retorno aos seus candidatos depois de cumpridas todas as etapas. O que motivou a sua reação nas redes sociais e porque essa prática precisa ser evitada?

Jéssyca Rocha Depois de não ter retorno sobre alguns processos seletivos que participei e ficar um pouco chateada, fiz a publicação como uma crítica. Não esperava tanta repercussão, mas tinha total consciência de que ela representava muitas pessoas. O meu intuito era mostrar que um candidato também merece respeito. Não é apenas uma “insatisfação por falta de um feedback”, é insatisfação pelo tempo que a gente gasta e se prepara para várias etapas de um processo seletivo. Temos que fazer vários testes (inglês, português, raciocínio lógico, jogos para análise de comportamento, etc) e participar de inúmeras entrevistas e dinâmicas. Nos dedicamos, estudamos, investimos o nosso tempo e o mínimo que se espera é um retorno, principalmente das empresas que dizem ser preocupadas com os processos seletivos humanizados e levantam pautas de inclusão e diversidade. Isso tudo tem a ver com a comunicação, que é a minha área e com a cultura organizacional, que representa hábitos, comportamentos, valores éticos e morais e políticas internas e externas. Ou seja, é uma base para o funcionamento de uma empresa. Ao mesmo tempo que ela é responsável por definir quem a empresa é, ela também tem influência no comportamento de seus colaboradores e na forma com que a sociedade enxerga a organização. Quando uma empresa mostra ter uma missão e valores, mas os setores não estão alinhados e nem representam isso, está havendo uma falha na comunicação interna, que é extremamente importante e uma ferramenta eficaz para alinhar os valores da empresa aos diversos públicos. E é sobre isso que eu queria falar também.

Viver Direito – Ainda na linha das questões relativas ao mercado de trabalho, você acredita que os estudantes de ensino superior, sobretudo dos cursos de humanas e ciências sociais, estão sendo devidamente preparados para os desafios que a carreira escolhida trará no futuro? Há incentivos voltados para a preparação prática dessas pessoas?

Jéssyca Rocha – Ao meu ver, o ensino superior nunca vai dar conta de acompanhar o mercado de trabalho completamente. Estamos em uma época imediatista, tudo muda muito rápido, todo dia tem uma inovação e demanda dos profissionais novas habilidades. Então, é um aprendizado constante, para além do ambiente acadêmico.

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