A arte da oratória: entrevista com a escritora Sandra Mateus

Sandra Mateus Sandra Mateus - escritora


Dicas práticas para superar o medo de falar em público, evitar erros e melhorar a comunicação oral

A comunicação é, sem dúvidas, uma ferramenta essencial para o ser humano. Dominar as suas diferentes formas – escrita, falada e não verbal – é fundamental, não só para a evolução e sobrevivência da espécie, mas para o convívio diário com amigos, familiares, clientes e colegas de trabalho.

No meio jurídico, a capacidade de comunicação se torna ainda mais relevante. Os atos processuais se desdobram em atividades escritas e faladas. Peças processuais, contratos e outros documentos são escritos e o poder de transmissão da mensagem é crucial. Em outros momentos, a sustentação oral dos advogados, o voto dos magistrados, as reuniões com clientes, entre outros, demanda imensa capacidade de oratória.

Ocorre que, especificamente no que tange à comunicação oral, muitos têm medo de falar em público. Outros, apesar da coragem, não dominam técnicas importantes e comprometem a sua exposição por falhas que poderiam ser evitadas. Pensando nisso, convidamos a escritora Sandra Mateus, especialista no assunto e sucesso em Angola, para conversar conosco a respeito desse relevante tema. A nossa entrevistada é professora de Ensino Superior, formadora de Oratória (Técnicas de Expressão Oral em Público) e escritora com 4 obras publicadas e disponíveis em todo o mercado da língua portuguesa. Sandra Mateus concentra o seu interesse em temas ligados ao ensino, à comunicação e à gestão estratégica de pessoas.

Viver Direito – Qual a importância da oratória para a ascensão profissional?

Sandra Mateus – Se pensarmos que o sucesso das nossas atividades profissionais está diretamente ligado à forma como comunicamos os nossos serviços e/ou produtos facilmente entenderemos que a importância da oratória está na necessidade de interação. Independentemente da nossa área da atuação, quem nunca precisou comunicar uma ideia a um pequeno público? 1, 2 ou 3 pessoas. Ao apresentarmos uma ideia queremos ser ouvidos e aceites. A oratória cria caminhos para que os ouvintes percebam a mensagem tal como o emissor quer que esta seja recebida. Surge então outra questão: “para quê falar se não nos interessa se os ouvintes percebem ou não?” Enquanto profissionais que almejam ascensão, interessa-nos persuadir, convencer, conquistar e… é precisamente disto que trata a oratória.

Como você avalia a formação universitária em Angola no que tange a preparação dos estudantes para falar em público?

Por meio de trabalhos práticos e apresentações orais as universidades em Angola conseguem não deixar de parte a questão do treinamento para se ter o “à vontade” ao falar em público e isto é fantástico. Contudo, julgo ser preciso começarmos a apostar nos mais novos. É preciso que a partir das classes anteriores se comece já a levar os estudantes à prática de falar em público. Quanto mais cedo melhor.

Muitas pessoas têm verdadeiro medo de falar em público. Quais são as vossas dicas para superar essa relevante barreira?

Enquanto formadora a primeira dica é levar o formando a perceber o que é efetivamente este medo. Algumas pessoas dizem: “tenho medo de falar”, mas este medo pode ser traduzido em ansiedade, medo de errar, nervosismo, falta de domínio da matéria, falta de confiança, traumas e tantos outros. A primeira dica para vencer o medo de falar em público é compreender o medo. Não se combate um inimigo desconhecido. É preciso saber qual é a necessidade ou dificuldade específica de cada pessoa para então propor o melhor caminho a percorrer. As dicas que servem para pessoas com ansiedade não são as mesmas que se orientam às pessoas com falta de domínio da matéria. Portanto, cada caso é um caso e cada caso deve ser acompanhado de forma particular.

Quais são as habilidades indispensáveis ao orador de sucesso?

No meu entender, indispensável é ter domínio do tema e preparar-se. Por mais que domine a ansiedade, que controle o nervosismo ou que seja um perito na matéria, se o orador não dedicar algum tempo a preparar-se, sempre que se for apresentar em público, as chances de falhar são múltiplas. Tenho dito que até para improvisar é preciso preparação.

Quais são os erros mais comuns e os mais graves que devem ser evitados na hora de falar em público?

Diante de vários que poderia identificar, escandalizam-me as pessoas que seguem as regras à risca, só por seguir. A oratória é uma arte e como tal deve ser desenvolvida de forma individual. Não temos todos de falar pausadamente, não temos todos de manter o sorriso de vendedor permanente, ou gesticular mesmo quando não é necessário. O mais belo na oratória é a naturalidade de quem faz uso. As regras existem para serem adaptadas a cada indivíduo de acordo à sua personalidade e ser, não para serem memorizadas e seguidas à risca mesmo quando a nossa conjuntura não permite. Quanto mais perto do nosso estado natural estivermos, mais perto ficamos de persuadir quem nos ouve. O segredo é aplicar as regras no sentido de garantir que estas estão efetivamente a melhorar a comunicação.  O que mais desaconselho é seguirem as regras só por serem regras, sem adaptá-las ao público, ao cenário ou ao momento. É crítico para mim.

No seu livro “Manual de Oratória” você compartilha dicas importantes com o(a) seu(sua) leitor(a). O que mais o leitor encontrará na obra?

O “Manual de Oratória” tem como objectivo guiar de forma prática todos os profissionais que necessitam aprender ou aprimorar técnicas para falar em público. No livro, apresentam-se diferentes conceitos e dinâmicas para que, de forma autónoma, o profissional possa desenvolver-se na arte de falar em público. É um guia prático.

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